Após se devotar a estudos sobre o trabalho e a classe operária -boa parte dos quais na América Latina- e sobre movimentos sociais, ele se voltou para a revalorização da categoria do sujeito
Extraído do site do IHU – Instituto Humanitas Unisinos*
Fonte:http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=9169
Alain Touraine, um dos principais sociólogos da atualidade, se consagrou como agudo analista da sociedade pós-industrial. Após se devotar a estudos sobre o trabalho e a classe operária -boa parte dos quais na América Latina- e sobre movimentos sociais, ele se voltou para a revalorização da categoria do sujeito. Sua meta é desvendar os protagonistas e as formas de ação que hoje impulsionam as grandes transformações -que, para ele, são mais culturais que sociopolíticas. E é nesse contexto que Touraine decidiu atentar para a questão da mulher. Realizou na França, entre 2004 e 2005, 60 entrevistas, três reuniões de grupos de discussão e um estudo complementar sobre as mulheres muçulmanas. O resultado é o livro “O Mundo das Mulheres” (trad. Francisco Morás, 208 págs., R$ 35), que está saindo no Brasil pela editora Vozes. Nele, o professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris) mostra como as mulheres são hoje construtoras de uma nova cultura, válida não só para elas mesmas mas para o conjunto da sociedade. Uma cultura marcada pela priorização não mais da “conquista do mundo” -típica da época da dominação masculina-, mas sim de uma “construção de si” sustentada na sexualidade e na combinação do que, antes, eram pólos opostos -por exemplo, afetividade e razão, corpo e espírito, masculino e feminino. Alquimias múltiplas que superariam as assimetrias e “formas de dominação que deram sua dinâmica (e sua brutalidade) à modernização européia”. Para Touraine hoje a mulher afirma sua autonomia e liberdade sem recorrer ao discurso da vitimização nem à queima de sutiãs em praça pública. E, assim, ela também reflete e reforça o primado da felicidade individual e o descrédito que pesa sobre a política e sobre as formas tradicionais de ação e de utopia coletivas. A reportagem e a entrevista com Alain Touraine é de Caio Liudvik e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 26-08-2007. Eis alguns trechos da entrevista. Falando agora de seu livro, por que escolheu a mulher como objeto de pesquisa? Meu livro não trata da identidade feminina. Ele apresenta proposições sobre as transformações da sociedade, em particular a idéia de que as categorias culturais comandavam, a partir de um dado momento, as categorias sociais. Observei inicialmente que as mulheres correspondiam a essas mudanças ou eram suas portadoras. E descobri que não havia nenhuma resposta. Iniciei um trabalho pessoal de entrevista com grupos e indivíduos e me deparei com temas que correspondiam exatamente àquilo que eu pensava. Isto é, que essas mulheres se definiam em termos de cultura, de personalidade, e consideravam que ser mulher era a meta da vida, que elas queriam se construir como mulheres e principalmente numa determinada área, a sexualidade. Portanto, não fiz uma ruptura com o que fazia antes; eu diria que transformei a tese geral de meu livro sobre o novo paradigma [“Um Novo Paradigma -Para Compreender o Mundo de Hoje”, ed. Vozes] em definição e descoberta de novos atores. A passagem para um novo paradigma é realizada sobretudo pelas mulheres. A partir de seu livro, é possível responder à pergunta de Freud “o que querem as mulheres?”? A referência a Freud é particularmente imprópria aqui na medida em que o tema foi pouco estudado por ele e, por vezes, de maneira quase ridícula, como sobre a inveja do pênis etc. Meu ponto de vista não é o da psicologia. Escutei as mulheres, as fiz falar entre elas, e segundo uma visão da sociedade. Quais são ou devem ser suas condutas, seus princípios de orientação positiva. Eu descobri essas mulheres como criadoras ou aquelas que afirmavam uma nova moral. Para falar rapidamente, a imagem masculina era a imagem da conquista do mundo, e a imagem feminina é não a da conquista, mas sim a da construção de si. Um retorno ao interior, acrescentando-se que o que é feito ou iniciado pelas mulheres é adotado pelos homens com grande facilidade ou com grande lentidão. Quando nós entrevistamos os homens, em geral eles dizem que estão de acordo com essas transformações, que, com efeito, eram transformações culturais feitas para todo mundo, homens e mulheres. Essa diferença que o sr. assinalou, entre a conquista do mundo e a construção de si, se deve a uma distinção de “natureza” entre o masculino e o feminino? Minha interpretação foi antes de tudo histórica. Ou seja: houve um modelo de desenvolvimento histórico, que podemos chamar de ocidental ou europeu, que se baseou em fundamentos como a conquista do mundo. Ou seja, a concentração de poder e recursos nas mãos de pequenas elites e a submissão de categorias como os trabalhadores e colonizados, mulheres e crianças. Ao longo do século 20 ou dos dois últimos séculos, as revoluções suprimiram os reis, os movimentos quiseram obter capacidades e direitos, as colônias foram descolonizadas etc. E então o mundo ocidental se encontrou sem projetos construtivos e num tipo de abandono, digamos, ao mercado e a um tipo de consumo elementar. E o que observo é que se constituem e se constituíram no mundo ocidental, num amplo sentido, novos objetivos, que são não de modo nenhum de conquista, mas sim, ao contrário, fundamentalmente de restabelecer uma certa unidade entre pólos que haviam sido contrapostos. Evidentemente o caso mais importante é o da ecologia política. As mulheres de início participaram ativamente desse movimento, mas realizam algo análogo, que é: não se deve opor o corpo e o espírito, o corpo revestindo o espírito. É preciso, ao contrário, reconciliar, combinar os opostos, e isso se tornou um grande tema da cultura contemporânea. Há muitos estudos mostrando que, quando interrogadas sobre a escolha entre a vida profissional e a vida privada, elas respondem: “Não é uma questão de escolha, nós podemos combinar as duas coisas” -e é isso o que é característico da cultura contemporânea. Então o “mundo das mulheres” é hoje o mundo de todos? Certamente. É algo clássico, os grandes movimentos culturais ou sociais foram sempre promovidos por grupos particulares, mas com uma intenção universalista. As mulheres não dizem jamais que querem substituir um mundo masculino por um feminino. Elas querem é ir além das oposições, suprimir a dominação do homem sobre a mulher e promover um mundo de reintegração dos elementos que haviam sido contrapostos. E quais as perspectivas para os homens no “mundo das mulheres”? Um tipo de feminização? Essa questão é muito difícil. Não diria feminização, mas de certa forma os homens estão envolvidos no movimento que foi mais definido pelas mulheres, isto é, um cuidado de si, seja pela ginástica, o cuidado com o corpo ou o retorno a religiões orientais. Como definir o papel da sexualidade na construção de si ambicionada pelas mulheres? O que elas compreendem ser a realização e a felicidade na esfera sexual? Eu diria que o que as mulheres e, atrás delas, os homens fazem de uma maneira maciça hoje em dia é a idéia de transformar isso que se chama sexo, pulsão, libido em relação consigo mesmo em modelo de conduta, ao qual se incorporam esses elementos libidinais, como diriam os psicanalistas, ou eróticos etc. No fundo, uma relação com o corpo em todas as suas dimensões: há uma reabilitação do corpo como um modo de se afirmar para si mesma. Por que o sr. diz que “as lésbicas e os gays não podem ser considerados terceiro e quarto sexos”, respectivamente? Creio que o papel das lésbicas na evolução das idéias foi essencial, enquanto os gays tiveram um papel de contestação, de intervenção, ainda maior. Mas me interesso muito pelas reflexões de feministas americanas que dizem que o que acontece e deve acontecer é um tipo de supressão ou, em todo caso, de indiferenciação relativa dos papéis sexuais. Em relação aos homossexuais, homens e mulheres, transexuais, pessoas que são bissexuais, multissexuais, penso que essas feministas têm razão em dizer que as mulheres intervêm para superar essa dualidade. Elas têm razão em dizer que essa dualidade está intimamente ligada à situação tradicional de dominação masculina sobre as mulheres e que, a partir do momento em que se quer suprimir essa dominação, as categorias homem-mulher se tornam frágeis -não somente como gênero mas também como sexo. É por isso que sou um pouco hesitante sobre a importância a longo prazo do movimento homossexual, pois creio que é mais a indiferenciação e a mistura de categorias do que a criação de nova categorias. Evidentemente, é preciso respeitar os direitos de todos os que aparecem como minorias ou, simplesmente, de uma sexualidade diferente. Sua pesquisa constatou um interesse muito pequeno das mulheres por política… Não é um interesse muito pequeno, é uma rejeição. Essas mulheres não gostam de serem chamadas de feministas, pois, para elas, “feminista” é uma definição política, e elas se situam em um plano cultural. E é verdade que é uma grande diferença, as feministas desempenharam um papel essencialmente por mudar a lei, enquanto as mulheres de hoje não se preocupam tanto com a mudança da lei, mas com a mudança cultural. Como o sr. analisa a possibilidade de a democrata Hillary Clinton se tornar presidente dos EUA? Não diria que Hillary Clinton seja uma personagem definida essencialmente por valores femininos. Já observei – e talvez seja um fenômeno francês – que o meio que permanece mais machista ou antifeminino é o meio político. Desse ponto de vista, o meio político está atrasado e segue o movimento geral, mas considero que ser ou não mulher não tem peso decisivo no valor do candidato. O feminismo está ultrapassado? O que realmente se chamou de movimento das mulheres, de liberação das mulheres, de feminismo foi essencialmente um movimento político. Esse movimento nasceu em vários países, mas onde teve mais peso foi no Reino Unido. E em vários países a aquisição do direito ao voto pela mulher foi o objetivo prioritário. Em seguida houve todas as questões capitais sobre a liberdade de dispor do corpo e, portanto, sobre contracepção e aborto. Foi quando o movimento feminista passou de tema político a tema propriamente cultural. Houve, assim, um deslocamento extremamente nítido da ordem política, jurídica, rumo a uma ordem cultural e da conduta de si. Sua pesquisa foi realizada na França. Os resultados seriam similares num país como o Brasil? Numerosos estudos feitos sobre as mulheres na América Latina, sobretudo no Brasil e, em certa medida, no Chile apontam tratar-se de um problema muito diferente, mas que ao mesmo tempo remete ao mesmo problema. O grande fenômeno que se observa nos meios populares é primeiramente o papel dominante das mulheres, pois as famílias são freqüentemente monoparentais. As mulheres têm os filhos, os homens desaparecem, e então observamos freqüentemente que são as mulheres que tomam as iniciativas quanto a escola, hospital etc. Contrariamente ao que se diz em relação ao sul da América Latina -pois a realidade mexicana é bem diferente-, a idéia da mulher dominada é uma idéia em grande medida falsa. Um importante capítulo de seu livro é dedicado às muçulmanas que vivem na França. Como elas se inserem nesse novo mundo das mulheres? A tese que se disseminou pelo mundo é a do choque de civilizações de [Samuel] Huntington. Eu me perguntei, então: essas mulheres que estão entre o meio familiar e comunitário muçulmano e o meio francês vivem o conflito entre essas duas culturas? Ora, não é de modo nenhum o que observei. Elas se preocupam essencialmente com a forma de combinar as duas culturas, adotando certos aspectos e rejeitando outros. Quase todas essas mulheres aderem ao islã, mas recusam o controle exercido pela família ou pela comunidade sobre elas. Portanto, são cidadãs francesas, falam francês, vão à escola e se definem absolutamente como francesas. Mas, ao mesmo tempo, têm consciência de que há uma forte discriminação contra os muçulmanos e muçulmanas na França e são extremamente hostis às tendências racistas na sociedade francesa. O resultado que obtive é que essas mulheres afirmam ser preciso reforçar a individualidade. Cito a frase de uma mulher que está deixando a casa dos pais: “Percebo que, pela primeira vez na minha vida, acabo de dizer “eu”. Aquilo em que acredito é que esse encontro de culturas, que pode resultar num choque, pode também resultar no desenvolvimento do indivíduo e da capacidade de combinar uma pluralidade de experiências culturais. É possível mencionar alguém, nos campos da arte, cultura ou política, que fosse o protótipo da nova mulher ? Não gosto dessa imagem. Mas diria que foi no mundo escandinavo que se formou o maior número de mulheres que alcançaram grande responsabilidade no desenvolvimento de idéias que possam resultar na transformação profunda da sociedade. Historicamente, houve no mundo escandinavo uma criatividade em tudo o que diz respeito à reflexão sobre a mulher e que é, indiscutivelmente, maior que em outros países. Para resumir, o rosto do mundo global é um rosto feminino? Não diria que é um rosto feminino, diria que é um rosto esculpido pelas mulheres, e que, numa certa medida, está além das oposições de sexo. O que não quero fazer é uma psicologia das mulheres contra uma psicologia dos homens. Penso que as mulheres, por terem sido dominadas, foram elementos de ação, de vingança, de restabelecimento e reivindicação de direitos. São justamente as mulheres que criam esse mundo cultural novo. Mas não é um mundo das mulheres, mas um mundo criado a partir da vontade das mulheres de se libertar e feito, como disse, tanto pelos homens quanto pelas mulheres. *** Comentário: “Felicito-a, Dep. Luciana, nessa luta e incentivo para que funções públicas, cada vez mais, sejam conquistadas (e ocupadas) por mulheres, até porque, além de maior equilíbrio e intuição, as mulheres já demonstraram em muitas oportunidades sua maior competência e sensibilidade. Parabéns!” (Luiz Carlos Balcewicz – Email: balcewicz@uol.com.br)