Extraído do Boletim Eletrônico do CEPAT
Ernesto Guevara Lynch de la Serna, mais conhecido como Che Guevara ou mesmo só Che, tornou-se uma figura emblemática na América Latina. Este argentino, nascido em 1928, na cidade de Rosário, ganharia o mundo, deixando para trás seu país natal, para fazer da América Latina a sua pátria e a liberdade dela o seu sonho.Em 8 de outubro de 1967, Che é capturado e executado no dia seguinte. Termina, assim, a vida deste revolucionário, que teve um ideal e lutou por ele até o fim, foi coerente com sua causa, que optou por levar uma vida simples, cheia de sacrifícios, nas antípodas do poder e das suas paparicações. Tornou-se uma inspiração para muitos militantes e também para alguns governantes. Ou sua morte seria também o início de uma era de “ressurreições”, marcada pela idolatrização, pela mercantilização de sua figura e, por que não dizê-lo, a construção de um mito, que supera e se descola do Che real? É essa pergunta que a análise dessa semana quer ter presente ao analisar sua vida e seu legado quando da passagem dos 40 anos da sua morte. Entre as comemorações do aniversário de morte de Che foi programado o II Encontro Che Guevara, que aconteceu de 7 a 9 de outubro, em Vallegrande. O encontro, organizado pela Fundação Che Guevara e o Ministério da Cultura da Bolívia, reuniu cerca de 10 mil pessoas nas cercanias de La Higuera, local onde foi morto. Do encontro participou uma comitiva brasileira, que, de ônibus, viajou de Curitiba até o local do encontro. No Brasil, para homenagear o pensamento de Che Guevara, o Movimento Sem Terra (MST) e outros movimentos sociais, realizam anualmente a Jornada de Solidariedade e Trabalho Voluntário Che Guevara e também, na Escola Florestan Fernandes, foi realizada a II Jornada Internacionalista de Solidariedade a Che Guevara e Camilo. As homenagens a Che aconteceram também em tantos outros países, especialmente na Argentina, Cuba, Bolívia e Venezuela. Nestes dois últimos países, Che vira figura oficial. Frei Betto analisa o legado de Che para a esquerda mundial. “Primeiro, o internacionalismo revolucionário, combinado por um sentimento de justiça que o manteve equidistante tanto do capitalismo quanto do socialismo soviético. (…) Segundo, o desprendimento. Não lutou pelo poder, lutou pela libertação dos pobres. Tanto que, ministro em Cuba, em paz com a história, tudo abandonou para meter-se, primeiro, no Congo, e em seguida, na Bolívia. Na política, Che equivale a São Francisco de Assis na religião”. Analisando mais especificamente a contribuição de Che para o Movimento dos Sem Terra, João Pedro Stedile diz que “para os militantes do MST, o exemplo da vida de Che Guevara nos inspira e alenta em muitos aspectos, mas, sobretudo, nos valores que ele praticou. Talvez tenha sido um dos poucos líderes populares latino-americanos que viveu intensamente e coerentemente com tudo o que pensava e defendia na teoria nas teses políticas. E essa coerência de vida nos deu como legado o seu espírito humanista, de sacrifício. Che era o primeiro no trabalho e no estudo, e o último na fila da comida e do lazer. E praticou isso, mesmo ocupando os mais altos cargos públicos, como ministro da Revolução Cubana. Ele estimulava a necessidade do estudo, de que todos deviam, todo o tempo, procurar estudar, se aperfeiçoar”, João Pedro Stedile. O dirigente do MST ainda destaca o humanismo de Che: “O humanismo do Che aparece em toda sua vida e suas ações práticas. Ele sempre colocava o bem-estar e a felicidade do povo pobre, em primeiro lugar. Mas identificava que essa “libertação”, essa melhoria das condições de vida, somente seriam possíveis como uma ação social, como uma obra coletiva. E procurava dar exemplo de que a solução não seria por suas decisões pessoais, mas somente pela ação coletiva do povo”, diz. O fato é que hoje, a figura de Che tornou-se um mito que move, que fascina, que vende, mas que não necessariamente ainda condiz com a realidade e realmente induz a um engajamento em favor de mudanças. Frei Betto reconhece a cooptação que a imagem de Che sofreu: “Porque o sistema aprendeu que cooptar um símbolo é a melhor maneira de neutralizar seu significado. Assim, faz de Francisco de Assis um mero amigo dos animais e pioneiro da ecologia, encobrindo seu gesto contra o capitalismo nascente; de Gandhi um mero pacifista, encobrindo sua luta contra o Império Britânico; de Che um retrato charmoso estampado na camiseta, encobrindo sua opção revolucionária pela libertação da América Latina”, diz. Há, no entanto, quem discorde dessa mercantilização de Che: “Não acho que no Brasil a imagem de Che foi convertida em objeto de consumo. Há o respeito, o carinho e a devoção à imagem de Che em todo o mundo, não só no Brasil”, opina o cubano Tirso Saenz, que dividiu com Che o ambiente de trabalho por cinco anos quando este era Ministro da Indústria em Cuba. Tirso Saenz é o autor do livro O Ministro Che Guevara: testemunho de um colaborador (Rio de Janeiro: Garamond, 2004). Já Reginaldo Ustariz Arze reclama do tratamento dispensado ao corpo de Che: “O tratamento dado ao seu corpo violou todos os sentimentos de cristianismo, quando não de humanidade. Foi tratado como se fosse tralha, quinquilharia. Evidentemente, suas vestes eram similares às de um mendigo, mas não era um mendigo. Reitero: era um HOMEM, era o CHE”. Reginaldo Ustariz Arze é médico e jornalista boliviano e atualmente vive no Brasil. Viu e fotografou o tratamento dado ao corpo de Che. Arze não esteve na linha de combate, mas nos seus bastidores, como correspondente de guerra. Escreveu a obra Vida, morte e ressurreição de Che (São Paulo: Brasbol, 2004). “Tome-se a palavra não no sentido teológico e sim no sentido histórico dos fatos, pois quando digo que Che ressuscitou é porque, embora a palavra pudesse estar mal empregada, ele jamais morreu. Suas idéias estão vigentes hoje em dia, tão vigentes que na Bolívia, 39 anos depois, quando Evo Morales tomou o poder, disse publicamente, dezenas de vezes, que seu ídolo é o Che, e que seu partido segue, entre outras coisas, os alinhamentos do Che”, diz Reginaldo Ustariz Arze. “O mito de Che é tão forte que praticamente não deixa fissuras, espaços para hipóteses, dúvidas, perguntas. É estranho, porque em vida Guevara detestava isso, o culto à personalidade – um dos problemas que ele teve com os soviéticos, e algo que repercutiu em Cuba – e era um homem que, apesar de sua moderação e de sua lealdade orgânica a Castro, se permitia avaliar hipóteses, perguntar, duvidar, questionar e dissentir”, admite o mexicano Jorge Castañeda, que escreveu uma biografia de Che intitulada Che Guevara – A vida em Vermelho (Companhia das Letras, 2006). Constrói-se assim um fetiche. “Para esses jovens de esquerda, Che personificava o idealismo igualitário. Portanto, a morte de Che Guevara aumentaria ainda mais o mito do guerrilheiro heróico e generoso. A boina e a estrela compõem até hoje a personificação do revolucionário rebelde, um símbolo que resiste ao tempo. Ainda que alguns setores tenham-no visto como criminoso, outros fizeram dele o emblema do mártir na luta contra ditaduras. Dando a vida por suas idéias, consagrou a imagem do herói idealista, romântico, aventureiro e desinteressado, disposto a todos os sacrifícios – virtudes que compõem o mito Guevara”, diz a publicitária Luciana Ferreira de Matos, ao falar sobre Ernesto Che Guevara. Ela conclui que “Che Guevara, de alguma forma, manteve uma posição de força na imaginação popular, sobretudo entre os jovens de diferentes gerações. Tudo o que ele significou e expressou, sua força e utopia, canalizada em movimentos sociais, talvez não tenha sido (totalmente) destruído”. Luciana é bacharel em Publicidade e Propaganda pela ESPM. “Sua imagem é usada para divulgar ações com objetivos meramente comerciais, o que é o oposto de tudo o que Che, de fato, simboliza. A figura de Che Guevara – e seu significado – sofreu uma implacável ação de despolitização: o ídolo revolucionário, que começou sendo um símbolo de lutas sociais, torna-se uma mera imagem de consumo, retirado do seu contexto histórico”, prossegue Luciana Matos. “A cultura pop internacional usa e abusa da imagem de Che Guevara, tirando o seu valor crítico, político e social. Che foi absorvido pela sociedade de consumo que ele morreu tentando combater. A ironia é como a representação de um revolucionário de esquerda, do comunismo, tem sido utilizada indiscriminadamente no sistema capitalista, e como foi inserida no imaginário popular de uma sociedade de consumo”, enfatiza a publicitária. Mas por que razão Che se transformou num mito?, pergunta Jorge Auliciano. E ele, para responder, aponta para uma série de fatores: “A conjugação de uma derrota sublime, de um crasso erro tático e estratégico e de duas imagens que se difundiram quase que simultaneamente fizeram de Ernesto Guevara um símbolo de gratuidade, coragem, absoluto desapego, inclusive pelo objetivo e emblema de uma vitória metafísica”. Recorrendo a Jorge Castañeda, Jorge Auliciano aponta para o fato de que os tempos atuais são outros, comparando-os com o tempo de Che. “Há idéias que a imagem de Che já não atinge. Idéias que por sua vez seriam muito difíceis para os jovens que carregam a imagem de Che compreender. São de um período da história cujo discurso resulta incompreensível. Em Che Guevara: A vida vermelha (1997) o ensaísta mexicano Jorge Castañeda anota: “As idéias de Che, a sua vida, a sua obra, inclusive o seu exemplo, pertencem a outra etapa da história moderna, e como tais, dificilmente recobrarão algum dia a sua atualidade. As principais teses teóricas e políticas vinculadas a Che – a luta armada, o foquismo guerrilheiro, a criação do homem novo e a primazia dos estímulos morais, o internacionalismo combatente e solidário – carecem virtualmente de vigência. A revolução cubana – seu maior triunfo, seu verdadeiro êxito – agoniza ou apenas sobrevive graças à rejeição de boa parte da herança ideológica de Guevara. Mas a nostalgia persiste”. A pergunta incômoda a se fazer é a seguinte: será que também a esquerda não sucumbiu a uma certa idolatrização de Che? Não teria incorrido no erro de tomar apenas um aspecto de Che e o universalizado? Essa é ao menos a indignação do historiador argentino Paco Ignacio Taibo II: “Qualquer tentativa de deformar o Che é um erro grave. Fico de cabelo em pé com os livros que deformam o personagem e não o contextualizam. Quando a esquerda mais neanderthal da América Latina toma oito frases de Che e fica com a guerra de guerrilhas, perde o Che, este lhe escapa. Quando querem reduzi-lo ao animal político e não tomam em conta a cotidianidade dos atos políticos anti-hierárquicos do Che na vida diária, se lhes escapa o Che, perdem-no”. Taibo II acaba de lançar no México o livro El cuaderno verde del Che, uma antologia integrada por 69 poemas copiados por Che Guevara. O livro foi encontrado por três oficiais e um agente da CIA na mochila do Che, poucas horas antes do seu assassinato na escola de La Higuera, junto com o diário – escrito desde novembro de 1966 até outubro de 1977 -, doze rolos de película, cerca de vinte mapas corrigidos a lápis de cor, um rádio portátil que fazia tempo que não funcionava e algumas agendas. É verdade que Che teve a coragem de deixar sua vida de classe média e embrenhar-se numa outra realidade, que não lhe oferecia uma vida de segurança – pelo contrário! -, e assumir uma vida de andarilho, de contestador. Opôs-se com força aos valores do capitalismo. Lutava por uma mudança social, política e moral não submetida ao econômico com a ortodoxia stalinista. Mas também se pode dizer que Che não articulou o povo, ficou afastado da classe operária e camponesa. Com outras palavras, é o que diz o sociólogo José de Souza Martins: “A guerrilha de Che Guevara não se propunha a realização de uma revolução camponesa, a revolução dos pobres na Bolívia, como se supõe ainda hoje. Era apenas uma extensão geopolítica da Revolução Cubana, na perspectiva por ele proclamada de criar vários Vietnãs e por em xeque o poderio americano. No fim, Che lamentava não ter se aproximado dos camponeses da área da luta. Era tarde. Eles temiam os guerrilheiros”. Ou seja, adotou uma estratégia totalmente elitista tributária do marxismo-leninismo. Nesse sentido, foi um homem do seu tempo. No entanto, com Che podemos aprender a olhar “para baixo”, como costuma lembrar o zapatista Subcomandante Marcos, para o chão, para a realidade dos sofredores e dos excluídos, não para as alturas da glória do mito e do fetiche. (*) Fonte: Confira as entrevistas citadas no site do IHU – Instituto Humanitas Unisinos http://www.unisinos.br/ihu