Reportagem de Thea Tavares e Niomar Pereira para o jornal Hora Popular de Francisco Beltrão. Municípios têm vagas, mas não conseguem profissionais para atuar no interior.

Reportagem de Thea Tavares e Niomar Pereira 

A reportagem do Hora Popular procurou representantes da categoria e gestores públicos para entender por que há vagas ociosas para médicos trabalharem nos pequenos municípios e o que torna tão atraente o exercício da medicina nas grandes cidades. Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Paraná (Simepar), Mário Antônio Ferrari, os rendimentos são apenas uma das razões da fuga, não a única. Ele acredita que o problema seja de caráter sistêmico, que se repete em todo o país e que tem a ver com a falta de uma carreira médica definida para o serviço público, como acontece com juízes, magistrados, diplomatas, militares e fiscais da Receita Federal, o que elimina a perspectiva de progressão profissional. “Se existe uma carreira esquecida dentro do serviço público é a do médico”, reclama.

Ferrari também atribui responsabilidades à formação continuada, que é essencial para o aprimoramento dos médicos, após a conclusão do curso de graduação nas faculdades e da residência médica. “A medicina está em processo constante de atualização, por isso o médico precisa aprender nas escolas, aprender com o conhecimento prático do atendimento diário às pessoas, mas também estar cotidianamente antenado com as inovações tecnológicas e pesquisas científicas na sua área. Por isso, ele participa de inúmeros congressos regionais, nacionais e internacionais de troca de informações, que têm custo elevado”, afirma. Ele estima que um profissional gaste por volta de R$ 10 mil por ano com educação continuada, incluindo passagem aérea, hospedagem de uma semana e o pagamento da inscrição no congresso.

Piso Salarial

A Federação Nacional dos Médicos propõe, com base na remuneração das carreiras no serviço público, que o salário ideal de um médico para 40h/semanais, que trabalhe por exemplo no Programa de Saúde da Família (PSF), deva ser de R$ 15 mil. E é justamente nesse ponto que se começa a entender o distanciamento entre capital e interior. As vagas abertas nos pequenos municípios do Sudoeste, hoje, oferecem uma remuneração salarial que varia de R$ 9 mil a R$ 12 mil. Com um leque maior de perspectivas, o profissional que atua em um grande centro urbano, dá plantão em hospitais públicos e particulares, atende pelo SUS, mantém consultório próprio e acaba aumentando os seus vencimentos no final do mês.

O presidente da Associação Médica do Paraná – AMP, José Fernando Macedo, considera a falta de estímulos no interior como a principal razão para que os médicos optem por salvar vidas nos grandes centros urbanos. Mas afirma que está na agenda da AMP a necessidade de propor uma solução para o problema. “Estamos elaborando, em parceria com as prefeituras, um projeto de interiorização do médico, que equilibre reivindicação e oferta salarial e também inclua a perspectiva de educação continuada”, diz.

Ao estudar uma proposta de emprego no interior, o médico coloca na balança, além dos rendimentos e da projeção profissional, outros critérios como a transferência da família, a educação dos filhos e a facilidade de acesso a bens e serviços e isso faz com que ele acabe preferindo ficar onde está. O prefeito de Realeza, Eduardo Gaievski, é um dos que questionam esse conceito de qualidade de vida. “Aqui, a vida é mais tranquila, menos violenta e essa paz de espírito não tem preço”, afirma.

Quatro Pontes é exemplo

O fato é que para o município pequeno estar bem servido de médicos, a qualidade de vida não é o único atrativo, especialmente para os profissionais em início de carreira. A geografia – proximidade de cidades maiores – e a segurança profissional, que vem da boa gestão pública do sistema de saúde também contam. É o caso de Quatro Pontes, município com pouco mais de 3.600 habitantes, situado a sete quilômetros de Marechal Cândido Rondon, e apontado pelo IBGE e pela Organização Mundial de Saúde – OMS, como detentor da maior longevidade do Paraná. A média de vida em Quatro Pontes é de 77 anos.

Apenas um dos quatro médicos que atuam no município mora lá. Os demais, trabalham alternadamente em Quatro Pontes, mas vivem em Rondon. “Temos médicos disponíveis 8h por dia nas unidades de saúde e convênio de emergência 24h com hospitais da cidade vizinha”, informa a enfermeira Gislaine Bergamo dos Santos, que é responsável pela vigilância epidemiológica local. Entre as equipes atuantes, Quatro Pontes possui uma de clínica geral, outra de ginecologia, uma de pediatria e uma do PSF.

 Em uma localidade onde todos se conhecem, o atendimento se aproxima do que poderia ser chamado de personalizado. Indagada sobre a incidência de gripe suína no estado e se houve casos de óbito no município em função da doença, a chefe da vigilância sanitária rebate: “Deus me livre! Se precisar, deixo a família, deixo de comer, passo oito horas aqui no posto, mas não deixo ninguém morrer, não”.

Consórcio de Saúde

O Consórcio Intermunicipal de Saúde (Cisa) foi a saída encontrada pelos municípios da região de Umuarama para investirem em políticas públicas eficientes na área, manterem profissionais para atendimento aos 21 municípios integrantes do consórcio e baratearem os custos dessa iniciativa. “São raros os casos encaminhados para Curitiba”, afirma o diretor da Associação dos Municípios de Entre-Rios (Amerios), José Cazelotto. A prefeitura de Umuarama doou recentemente um terreno para a construção do Hospital do Câncer na região que, quando estiver em pleno funcionamento, trabalhará como extensão do hospital de Cascavel, para onde ainda são encaminhados pacientes que fazem tratamento à base de quimioterapia.

“O nosso consórcio é um dos melhores do país. Realizamos tratamento dentário, implantes, reunimos especialistas em todas as áreas e, além disso, temos psicólogos para atendimento e tratamentos de drogadição e doenças emocionais. Também realizamos pelo consórcio de saúde cateterismo e comemoramos há pouco a execução de um transplante de coração”, informa Cazelotto.

(TT)

Municípios disputam médicos no Sudoeste

No Sudoeste a falta de médicos está criando uma disputa acirrada entre pequenos municípios. Mesmo com salários acima de R$ 12 mil, diversas cidades não conseguem atrair profissionais. Publicamente a informação não é admitida, mas nos bastidores há um verdadeiro leilão de “quem dá mais” para ter um médico atendendo a população.

O secretário executivo da Associação dos Municípios do Sudoeste do Paraná (Amsop), Celito Bevilaqua, acredita que a demanda criada a partir da implantação do Programa Saúde da Família (PSF) tornou ainda mais escassa a oferta de mão-de-obra de médicos nos pequenos municípios. “Alguns municípios pagam valores altos, mas a concorrência de mercado eleva o preço”, reflete.

Ex-prefeito de Itapeja Do Oeste por duas gestões, Bevilaqua informa que a saúde pública é a principal preocupação dos prefeitos e para onde são direcionados os principais investimentos. “A população está bem informada e sabe de seus direitos, portanto é justo, que reivindique um atendimento com qualidade”.

Concursos públicos

Concursos públicos realizados para contratação de médicos nos municípios da região é quase certeza de fracasso. Bevilaqua lembra que a legislação não permite que nenhum município pague um salário para funcionário público concursado superior ao do chefe do Executivo. A alternativa é contratar os serviços médicos através de empresas terceirizadas e por períodos menores.

Em Renascença, o prefeito José Kresteniuk (PSDB), abriu concurso para contratação de um médico clínico geral, mas não teve nenhuma inscrição. Ele também defende a idéia de que os PSFs e os demais programas sociais criaram muitos postos de trabalho, sem no entanto, serem formados novos profissionais. Kresteniuk acredita que está na hora da região Sudoeste ter um curso de medicina para que os recém formados possam iniciar e permanecer na região.

Corporativismo local

O chefe da 8ª Regional de Saúde, Antônio Cantelmo Neto, acredita que um dos principais fatores que dificulta a vinda de novos médicos para o Sudoeste é que os corpos clínicos já estabelecidos nos hospitais locais não abrem espaço para novos profissionais. “Os próprios médicos não dão oportunidade para novos colegas, que não vêm para cá sem uma estrutura mínima de trabalho”. Neto afirma que o Hospital Regional deve mudar essa realidade e será a porta de entrada para novos profissionais. “Num prazo de três anos não devemos mais ter esse problema”, observa.

O novo hospital do câncer que está sendo construído no bairro Alvorada pelo grupo de empreendedores do Centro de Oncologia Cascavel (Ceonc) também deverá abrir caminho para novos profissionais se instalarem na cidade.

 “Salário é questão secundária”

O médico e diretor do Hospital Regional, Odoni Quintana, discorda da afirmação de que médicos não gostam de vir para o interior. Segundo ele, o que o profissional médico não gosta é de trabalhar sem a infra-estrutura básica para desenvolver suas atividades. “Hoje a responsabilidade para o médico é muito grande e ele não se dispõe a atuar sem ter uma equipe no município, um hospital para internamentos, laboratórios para exames e postos de saúde bem equipados. O salário, nesta perspectiva, seria uma questão secundária”.

Por outro lado, ele recorda que das 140 vagas para médicos abertas através de teste seletivo para o Hospital Regional, em diferentes especialidades, apenas 50 foram preenchidas. Diante da falta de interesse, o Governo do Estado pretende firmar uma parceria com a Associação Regional de Saúde do Sudoeste (ARSS) para contratar os profissionais e pagar por serviços prestados. Além disso, um novo concurso público já está com inscrições abertas.

“É claro que existe a carência de profissionais no mercado, mas acreditamos que o Hospital Regional ajudará a trazer muitos médicos para a região que poderão atuar em outros estabelecimentos hospitalares. Um médico intensivista, por exemplo, que é um profissional caro poderá vir atuar no Hospital Regional e nada impede que ele atue também na Policlínica e no Hospital São Francisco”, relata.

Médicos formados em Cuba não conseguem atuar no Brasil 

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Enquanto mais de 450 municípios brasileiros não têm nenhum médico atendendo na rede pública de saúde local, cerca de 400 médicos formados em Cuba na Escola Latino-Americana de Ciências Médicas (Elam) não conseguem revalidar seus diplomas no Brasil e atuar na profissão. Reconhecidamente uma das melhores escolas de saúde pública do mundo, Cuba forma seus médicos em clínica geral com ênfase na atenção primária e mantém atualmente em torno de 600 estudantes brasileiros como bolsistas. São estudantes de camadas populares e ligados a movimentos sociais, que permanecem seis anos cursando medicina, mas depois se vêem obrigados a enfrentar uma maratona desleal para regularizar o diploma no Brasil, que só pode ser efetuada por instituição pública federal.

O beltronense Nestor Clóvis Citon se formou em Cuba e está há dois anos tentando revalidar o diploma. Já realizou provas em Mato Grosso, Goiás e Santa Catarina. Em Alagoas entrou na justiça para ganhar o direito de fazer a prova, mas não obteve êxito. De acordo com ele, são criadas inúmeras barreiras para médicos que se formam fora do país. No Acre, por exemplo, a prova de revalidação exige acerto de no mínimo 80%, enquanto para os alunos locais a exigência de acertos cai para 50%. No Amazonas, a inscrição para a prova custa R$ 5 mil e são abertas apenas cinco vagas para revalidação. No Paraná há anos que a Universidade Federal não realiza este tipo de procedimento.

Nestor lembra que até o ano de 1999 o médico chegava do exterior e apresentava o diploma para conseguir a regulamentação, mas a partir da criação da autonomia universitária no país, a instituições de ensino têm total liberdade para organizar calendários de provas, exigir conteúdos curriculares e cobrar o valor que bem entender. “São feitas provas absurdas feitas para não passar mesmo”, relata.  Ele admite que os médicos formados em Cuba devem ter uma complementação curricular em doenças tratadas pelo sistema de saúde brasileiro, já que não há na grade aulas sobre o SUS (Sistema Único de Saúde). Enquanto não consegue atuar como médico, Nestor passa os dias estudando para provas e procura emprego na área administrativa. Depois de conseguir legalizar sua situação, Nestor diz que sua meta é permanecer no interior e atuar preferencialmente em medicina pública.

(NP)

Vagas para médicos na região

São João tem vaga para:

Ginecologia e Obstetrícia (1 vaga)

Pediatria (1 vaga)

Realeza tem vaga para:

Pediatria (1 vaga) – preferencialmente mulher

Clínica Geral (1 vaga)

Cardiologia (1 vaga)

Ortopedista (1 vaga)

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