O tenente-coronel Marcos Pontes, de 43 anos, tornou-se nesta quarta-feira (29) o primeiro brasileiro a alcançar o espaço. Com a missão histórica, o país Brasil passa a integrar o seleto grupo de países qualificados a usar o mercado de bens e serviços espa
30/03/2006 – O tenente-coronel Marcos Pontes, de 43 anos, tornou-se nesta quarta-feira (29) o primeiro brasileiro a alcançar o espaço. Com a missão histórica, o país Brasil passa a integrar o seleto grupo de países qualificados a usar o mercado de bens e serviços espaciais, incorporando tecnologia e intensificando as pesquisas na área.
A viagem é resultado dos investimentos estratégicos de longo prazo do Programa Nacional de Atividades Espaciais, coordenado pela AEB (Agência Espacial Brasileira). No governo Lula, os recursos foram ampliados, chegando a R$ 225 milhões em 2005.
Além trabalhar pela presença e Pontes no vôo espacial, o programa foca no desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélites e no desenvolvimento, montagem e lançamento dos satélites da família Cbers (em parceria com a China).
Para colocar Marcos Pontes em órbita, o Brasil fechou um acordo com o governo russo em outubro do ano passado. Isso permitiu que a viagem saísse por US$ 10 milhões, menos da metade do valor cobrado pelos russos.
“Isso representa menos de 1% do orçamento anual do ministério. É um custo que o Brasil pode suportar tranqüilamente”, afirmou o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, que acompanhou o lançamento do Soyuz TMA-8 no auditório do ministério.
No preço estão incluídos os custos com o treinamento do astronauta, com o vôo até a Estação Espacial, o transporte da bagagem e o canal de voz que será usado para manter contato com o Brasil durante a missão.
Programa Espacial
O governo brasileiro investe US$ 100 milhões por ano no Programa Espacial, iniciado em 1961. O Brasil é um dos 15 países que desenvolvem programa espacial completo, com construção de satélites para observação da terra e meteorologia, veículos lançadores de foguete. “Agora sim temos um programa espacial completo”, comemorou Rezende.
A expectativa brasileira é de que a base de lançamento de Alcântara, no Maranhão, volte a operar no ano que vem. A plataforma foi destruída em 2003, em um acidente que matou 22 pessoas.
Marcos Pontes leva oito experimentos brasileiros para a Estação Espacial Internacional, selecionados entre mais de 50. As experiências são de universidades e centros de pesquisa. Na lista, estão projetos para analisar o efeito da gravidade nas enzimas, nas proteínas, os danos e reparos do DNA na germinação de sementes e no crescimento das sementes de feijão. A expectativa do ministro Sergio Rezende é de que, em um mês, os resultados das pesquisas já possam ser observados.
Depois de desenvolver os experimentos, Pontes fará um relatório sobre cada um deles. Quando voltar à terra, o relatório e os testes serão entregues aos pesquisadores. O objetivo é que o Brasil desenvolva conhecimento sobre a realização de pesquisa em ambiente quase sem gravidade. Os experimentos levados por Pontes vão permitir, por exemplo, o conhecimento de detalhes sobre eventuais falhas na execução dos oito experimentos.
“O mais importante é que ele está produzindo toda essa atenção de milhões de telespectadores e jovens que, esperamos, sejam atraídos para a ciência e para a tecnologia. O Brasil precisa disso para se desenvolver”, disse o ministro.
Lançamento
A nave Soyuz TMA-8 entrou na órbita terrestre às 23h39 (horário de Brasília), Quatro propulsores foram acionados nove minutos antes, às 23h30, um minuto depois do previsto pela agência russa Roskosmos. Como há nove horas de diferença entre Brasília e Baikonur, no Casaquistão, onde ocorreu o lançamento, já era manhã quando a base ficou cheia de fumaça e luz.
Na ponta do foguete estavam Pontes, o comandante russo Pavel Vinogradov e o engenheiro de vôo americano Jef-frey Williams. Os dois permanecerão na Estação Espacial Internacional (ISS), o destino da missão, pelos próximos seis meses. O brasileiro retorna para a Terra no dia 8, em companhia da atual tripulação da ISS.
O lançamento ocorreu de acordo com o previsto e foi bem-sucedido, disse Valeri Lindin, porta-voz do Centro de Controle de Vôos Espaciais da Rússia.
“Os sistemas da Soyuz TMA-8 funcionam perfeitamente, e o estado de saúde dos cosmonautas é satisfatório”, disse. “Estou muito emocionada”, disse a mulher de Pontes, Fatima, com lágrima nos olhos. “Estou muito, muito feliz.”
Passados 540 segundos do lançamento, a Soyuz alcançou a “órbita de ajuste”. A partir desse momento, a nave começa um vôo autônomo, eleva paulatinamente a altitude e descreve uma trajetória elíptica de quase dois dias, que tomará 32 voltas ao redor do planeta.
A nave se acoplará ao módulo russo Zvezda no sábado. Em caso de falha do sistema automático, Vinogradov conduzirá a manobra manualmente. Pontes deverá dar início no mesmo dia às experiências brasileiras que conduzirá em sua estada.
Amigos
Pouco antes de seguirem para a nave, os três falaram rapidamente com as comitivas de seus países, já vestidos com os trajes espaciais. “Não somos apenas uma tripulação. Somos amigos, damos apoio mútuo e temos confiança em cada um”, afirmou Vinogradov. “Quero agradecer a todos que nos ajudaram no treinamento para este lançamento”, disse Pontes.
O brasileiro passou os últimos cinco meses na sede da Roskosmos para se adaptar à nave Soyuz, uma vez que todo seu treinamento anterior como astronauta foi feito na Nasa, em aparelhos americanos.
O cerimonial de lançamento das naves russas tem muitos dos atos do primeiro homem a ir para o espaço, o russo Yuri Gagarin. Ele usou as mesmas instalações e partiu da mesma base de lançamento. “Gagarin é um ídolo para mim. Aqui tive a oportunidade de ver os locais onde passou e treinou, e também pude conhecer como a nação encara sua personalidade”, disse Pontes.
A missão recebeu o nome de Centenário, em homenagem ao vôo de Alberto Santos Dumont, há 100 anos, no 14-BIS.
