Por Felix Miglioranza*
Primeiramente quero deixar bem claro que este artigo não tem nenhum propósito de criticar a quem quer que seja. Tem apenas o objetivo de refletir sobre a maleficência ou pequenez de quem muitas vezes critica atitudes de governo sem a devida contextualização. Quando o presidente Lula comprou o avião presidencial, apelidado de Aerolula, foi um festival de críticas dos que achavam um absurdo gastar R$ 137 milhões para comprar um avião pro presidente.
Pois bem, é do conhecimento de todos, que a presidência da Câmara de Francisco Beltrão adquiriu recentemente um veículo Ford Focus, que segundo me consta, custou R$ 48 mil. Nada contra a aquisição, acho mesmo que a Câmara deve ter um veículo e deve ser bom, para não dar manutenção, mas vamos traçar um paralelo sobre o gasto da Câmara e o de Lula. A Câmara tem um orçamento anual em torno de R$ 840 mil; conseqüentemente, foi gasto o equivalente a 5,71% do orçamento anual. Na época em que foi comprado o Aerolula, o orçamento da União era de R$ 900 bilhões. Para gastar no mesmo percentual da Câmara, o governo federal poderia comprometer R$ 51,4 bilhões de reais. Ou seja, proporcionalmente, o Focus da Câmara custa o que custariam para a União nada menos do que 375 aviões iguais o Aerolula; e ainda sobrava um troquinho de R$ 10 milhões para gasolina. Por outro lado, o Aerolula custou para os cofres públicos, o equivalente a 0,015% do orçamento da União. Com esse valor a Câmara poderia comprar um veículo de 13 centavos.
E tem mais um detalhe importante. Embora o avião presidencial tenha sido apelidado de Aerolula, é público e notório, que a sua vida útil é de aproximadamente 30 anos, o que servirá para pelo menos mais seis mandatos. E o Focus, com a devida manutenção periódica, qual será sua vida útil? Será que o veículo vai ser substituído somente em 2037?
Percebe-se como há maleficência quando críticos vazios tentam jogar para o senso comum os valores em si, sem contudo, enquadra-los no contexto em que são empregados? Assim, não é a Câmara que gastou demais, é o governo federal que não gastou além do devido.
O mesmo está ocorrendo agora com os cartões corporativos. Assim como na primeira parte não estava criticando ninguém, aqui também não estou defendendo ninguém. Sei que há desvios, os quais devem ser apurados e os responsáveis condenados. Agora, querer jogar para a opinião pública que é um absurdo gastar R$ 500,00 num restaurante em jantar com comitiva internacional, é pura pequenez de espírito. Dizer que um ministério gastar R$ 70 mil num ano é roubo, é não ter noção do que seja um ministério. Para quem acha que nisso estou errado, faça o mesmo comparativo que eu fiz, só que agora com alguns gabinetes de prefeitos da região.
Mas por via das dúvidas, um alerta ao presidente da Câmara. Lembro-me que certa vez um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Paraná orientoui um presidente da Câmara de Francisco Beltrão, que a melhor forma de “esquentar” dinheiro na Câmara, era comprando um veículo.
(*) Félix Miglioranza é técnico judiciário da Vara da Justiça Federal de Francisco Beltrão e formando de Direito pelo CESUL. Este artigo foi publicado na edição do Jornal de Beltrão de 26/02/2008