O ministro disse que há uma nova oportunidade histórica de crescimento para o Brasil. O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, descartou que o governo esteja discutindo uma nova política econômica. Em entrevista ao telejornal Bom Dia Brasil desta terça-feira, na Rede Globo de Televisão, o ministro disse que seria um contra-senso o governo fazer um ajuste no ano passado e este ano passar a falar em mudar os rumos da economia. Palocci disse que o país ainda não terminou a regulamentação do setor elétrico e que o governo quer dar segurança para investidores e consumidores. Para o ministro, há uma nova oportunidade histórica de crescimento para o Brasil e o governo quer aproveitar a chance com uma política de crescimento sustentável. Palocci também negou que esteja nos planos do governo a volta das câmaras setoriais. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Não é perigoso soltar a economia, tendo em vista o que aconteceu agora com esse pico de inflação? Quando muda o patamar da economia?

Antônio Palocci – Acho que mudamos o patamar. Reduzimos o risco-país, controlamos a grande inflação no ano passado. Mudamos de patamar. A questão é o que é fundamental para a economia aproveitar para crescer. Muitas vezes analisamos medidas no curto prazo. Não analisamos o PIB potencial, que é a capacidade do Brasil ganhar mais produtividade e de receber mais investimentos.

O ministro José Dirceu fez declarações como a de que o governo não voltaria a dar autonomia para o Banco Central. Isso atrapalha?

Antônio Palocci – Seria injusto dizer que duas ou três declarações podem comprometer o processo. O ministro José Dirceu foi um colaborador extraordinário, que liderou pelo governo o processo de negociações das reformas com o Congresso. Os investidores estrangeiros têm olhado o Brasil com muito interesse. O país tem feito um ajuste do marco regulatório, discute as Parcerias Público-Privadas e o desenvolvimento da infra-estrutura. Se desenvolvemos todo esse ajuste, não há razão para não crescermos e de uma forma que seja de um desenvolvimento sustentável.

Mas o que acontece com o setor elétrico não está na contra-mão dos investimentos estrangeiros?

Antônio Palocci – Se olharmos aquilo que foi votado pela Câmara como parte da regulação do setor, ainda não se tem segurança. Mas temos de olhar que o setor não completou seu processo de regulamentação e que pode subir ainda uma escada. Há um conjunto de medidas a serem construídas para termos um marco regulatório consistente a longo prazo. Outros países também tiveram problemas no setor elétrico. O Brasil está fazendo a sua lição de casa. O trabalho da ministra Dilma Roussef e de todo o Congresso é para que se tenha um marco regulatório que dê ao Brasil segurança para os investidores e também para os consumidores. O senhor diz uma coisa e alguém do governo diz outra. O governo rediscute a política econômica?

Antônio Palocci – Seria um contra-senso o governo fazer um ajuste a um custo difícil e depois falar em mudar a política econômica. Seria colocar o país sem rumo. O fato de haver opiniões diferentes no governo e na sociedade tem que ser visto com tranqüilidade. O Brasil é um país rico em debate. O governo é livre, mas tem uma agenda muito clara. Não vejo com preocupação os debates. Política não é uma coisa pasteurizada e o governo também não é. O governo é dinâmico. Não acredito que exista qualquer dissensão no governo. Fundamentalmente temos segurança de que o Brasil está no caminho certo. O Brasil não quer crescer só em 2004, mas também em 2005, em 2010. No ano passado, por exemplo, aprovamos o microcrédito, junto com os sindicatos, com os bancos e os empresários, para garantir juros a taxas muito baixas. É todo um trabalho persistente. Esse ano, vamos desenvolver nossa agenda. Sempre disse aos investidores que o governo vai apresentar propostas e cumprir seus compromissos, mas também espero um pouco de emoção nos debates. Assim como no ano passado, a agenda será cumprida de novo.

O governo está disposto a conceder benefícios a alguns setores da economia? Está disposto a retomar as câmaras setoriais?

Antônio Palocci – Não é essa a indicação do governo. Não acho que isso seja adequado. Quando reduzimos impostos para o setor de bens de capital, reduzimos para todos os setores. No passado isso foi feito, mas não corresponde ao mundo moderno que temos hoje. Temos um parque industrial que tem ganhado competitividade. Quando escolhemos alguns setores para incentivar, é porque há efeitos horizontais na economia. Os bens de capitais, por exemplo, ajudam toda a economia. O agronogócio, por exemplo, fez crescer o emprego no Brasil. Na região Centro Oeste, houve um crescimento de 8% no emprego.

O Brasil hoje representa apenas 1% do comércio mundial e encontra dificuldades para fazer uma frente de comércio na América do Sul. Como o senhor vê isso?

Antônio Palocci – São coisas fundamentais. Em uma frente, o Brasil discute a Alca, em outra fica a negociação do Mercosul com a União Européia, e temos o fórum mundial que é a Organização Mundial do Comércio. Além disso, abrimos oportunidades de comércio com outros países, como os do Oriente Médio e os da Ásia. A discussão de nossa parte está de bom tamanho. Cada negociação tem seu tempo e são muito complexas. Mas é importante que o Brasil tenha bons resultados. Ao mesmo tempos, temos de ter produtos competitivos, como os produtos agrícolas, que ganham de qualquer país do mundo. Isso foi muito investimento, ciência e tecnologia aplicada. Temos de reproduzir isso para outros setores. Há uma nova oportunidade histórica de crescimento para o Brasil.

O senhor fala em superávit primário e o governo vai contratar mais 40 mil funcionários. Como será isso?

Antônio Palocci – Se você observar, pela primeira vez em muito tempo, os ajuste feitos no ano passado não foram cobrados da sociedade. Nos últimos 10 anos, o Brasil tem aumentado os impostos. O presidente Lula disse que vai cumprir religiosamente o compromisso de cortar gastos e não transferir para a sociedade esses ajustes. Fizemos um ajuste de contas sem pacotes tributários. Isso aconteceu pela primeira vez. Vamos continuar cumprindo esse compromisso. O governo tem também de melhorar a sua eficiência. Quando se fala em contratações, tem que se ver ao longo dos próximos anos. Não é para inchar o governo, mas para garantir a eficácia da máquina administrativa.(LA)

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