Artigo
Na sociedade do consumo, o alimento passou a ser considerado apenas como uma mercadoria e sua produção, avaliada como vantajosa, eficaz ou não unicamente sob a perspectiva do lucro. De acordo com dados do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional do Paraná (Consea-PR), pautados em informações do IPARDES-2000, mais de 2,32 milhões de pessoas no estado ou 590 mil famílias (20,87% da população paranaense) vivem na miséria. Desse total de famílias pobres, 67,07% residem em áreas urbanas e 32,93%, nas rurais. Essas pessoas são as principais vítimas de um modelo de produção agrícola que gera commodities e não “comida”, que planta lucro e não o alimento. A importância sócio-econômica do trabalho e do modo de vida de milhares de famílias que produzem alimentos, de forma agroecológica em pequenos estabelecimentos rurais pode ser resumida nas palavras do bispo emérito de Duque de Caxias, RJ, D. Mauro Morelli: “a filha primogênita da riqueza é a miséria do povo”. Com base nessa premissa é que a agricultura familiar de base ecológica busca um novo modelo produtivo e uma nova matriz agropecuária, pautada na preservação dos recursos naturais e na segurança alimentar. Porque o modelo extrativista já mostrou a que serve: à concentração de renda e ao enriquecimento de poucos em detrimento de todos. A socióloga Zélia Passos, cujos trabalhos são referência nessa área da segurança alimentar, costuma falar da necessidade e do valor de programas governamentais de combate à fome e à miséria, que aliem a produção de alimentos à distribuição de renda e diz que “a fome se dá pela ausência de renda e não pela escassez de alimentos”. A segurança alimentar e nutricional, foi pouco tratada pelos governos e atualmente passa a ser considerada importante e estratégica num país de dimensões continentais e de alta diversidade sócio-econômica, biológica e cultural como o Brasil. Graças à mobilização de setores importantes da sociedade que tratam do tema nos conselhos estaduais e municipais de segurança alimentar e nutricional. Quando se pensa em segurança alimentar, é comum as pessoas associarem o conceito apenas à oferta de alimentos e à qualidade organoléptica (cor, sabor, cheiro) quando de sua apresentação nas gôndolas dos supermercados e entrepostos comerciais. A segurança alimentar também passa por técnicas e formas de produção que gerem um alimento saudável, de alto valor nutricional, acessível a todos, que gere renda e qualidade de vida do início ao fim da cadeia e cuja atividade produtiva não agrida a natureza, para que essa oferta seja uma constante. Entender que o papel do agricultor ou da agricultora que cultivam esses nutrientes da vida é o de plantar saúde e bem-estar é compreender a amplitude do conceito de segurança alimentar. Plantando a qualidade da vida A agricultura e a domesticação dos animais nascem da necessidade do ser humano de alimentar-se, de dispor de fibras para uso diverso e de se estabelecer em determinados ecossitemas, deixando de ser nômade. O extrativismo das florestas, bem como a pesca e a caça, não tiveram a capacidade de dar suporte ao aumento das populações, da maioria dos povos. O “fazer agricultura” foi uma decisão consciente e uma necessidade das pessoas, a partir do momento em que passaram a dominar um maior número de plantas, de animais e de territórios. O processo de domínio das plantas e dos animais, provavelmente teve início há 10.000 anos e foi assumido pelas mulheres nas tribos e clãs que se agrupavam em regiões remotas da África e do México. Com a invenção da agricultura, surgem os primórdios, as primeiras noções de segurança alimentar das populações. O domínio das plantas, diz respeito ao processo de cultivo, colheita e acondicionamento (armazenamento adequado), mas, principalmente, de domínio do processo reprodutivo (produzir, armazenar e fazer germinar as sementes). Em relação aos animais, o domínio diz respeito ao processo de domesticação, de uso (para aproveitamento da carne, de leite, de ovos, do sangue, dos ossos e até em rituais religiosos) e compreensão do comportamento e da reprodução dos mesmos. O ser humano co-evoluiu com as plantas e com os animais a tal ponto de modificar e selecionar características desejáveis destes e também de se modificar em função dos mesmos. Na natureza, há muitas interações positivas entre os seres vivos, incluindo o ser humano. Com a divulgação do pensamento e das teorias Darwinianas, virou senso comum a idéia de que os seres mais aptos conseguiriam se adaptar melhor às diferenças de ambiente e, por conseqüência, sobreviveriam mais facilmente às adversidades. Essas idéias introduziram nas relações produtivas o sentido da competitividade e enraizaram as noções de eficiência produtivista que mais para a frente, em meados da década de 70 no Brasil, norteariam os conceitos e as práticas da chamada Revolução Verde, da agricultura química que tantos danos traz até hoje ao país. A agroecologia vem resgatar e devolver ao “fazer agropecuário”, os princípios das interações positivas como a simbiose, o mutualismo e a cooperação que promovem a vida dos agroecossitemas e dos seres humanos. O equilíbrio dinâmico entre produção animal e vegetal na agricultura familiar também aponta para a sustentabilidade dos sistemas de cultivo. Para promover sistemas sustentáveis, é importante produzir muita biomassa vegetal que é um indicador privilegiado de fertilidade dos agroecossitemas. Quanto mais biomassa produz, mais fértil e mais sustentável ele é. Técnicas e princípios que promovem fertilidade e abundância de alimentos vão resultar em segurança alimentar e maior sustentabilidade econômica, social e ambiental. O papel da integração lavoura-pecuária na oferta de alimentos Os sistemas de integração lavoura-pecuária de base ecológica são mais eficientes, pois possibilitam o aumento da ciclagem de nutrientes, a diminuição das perdas, a geração de renda e a oferta de alimentos ao ser humano. A integração resulta em maior nível de seguridade alimentar durante o ano, no aumento da fertilidade do sistema e em uma maior produção de matéria orgânica de alta qualidade. Outro fator importante é que a fertilidade também pode ser construída pela ação humana. Tende-se erroneamente a pensar que apenas a degradação ambiental seja fruto da presença do homem no meio, ou seja, que toda ação humana resulta em impacto negativo. Não é bem assim. O ser humano pode ter uma atuação sustentável e muito positiva sobre os agroecossistemas. O uso dos animais de forma consciente na agroecologia melhora significativamente a qualidade dos sistemas produtivos na agricultura familiar, podendo construir sistemas sustentáveis. Cultivos em faixas ou em níveis, sistemas agroflorestais de exploração de multi-extrato de luz e polidiversos são exemplos de práticas agroecológicas que evitam a erosão, recuperam o solo, retém mais água e contribuem para o aumento da trama radicular das plantas no solo. E justamente sob essas condições é que a agroecologia se apresenta como a melhor resposta, o melhor trato e o melhor manejo da natureza. Estratégias de segurança alimentar Os pequenos animais têm importância estratégica para a segurança alimentar. A produção para o consumo da família (de subsistência) se constitui em uma renda não monetária, mas que garante qualidade de vida. A produção de cabras, de ovelhas, de galinhas e de coelhos nos “sítios”, entre outros animais de pequeno porte, fornece proteína de alta palatabilidade (agradáveis ao paladar humano) e está em sintonia com a lógica de segurança alimentar. Se uma família possui de 8 a 10 galinhas e um único galo, ela consegue produzir ovos e carne o ano inteiro, se manejar bem esse plantel. Porque a técnica de reprodução desses animais é fácil e de domínio público, diferentemente do que acontece com as sementes. A alface americana, por exemplo, muito disputada pelos consumidores, é um vegetal que não floresce e não produz sementes no clima brasileiro. A cenoura Nantes também, pois é uma cultura de produção de inverno, não produz sementes em nosso clima e é plantada no país apenas com sementes importadas. Outro fator importante diz respeito ao aproveitamento dos “restos” na propriedade. Muitas sobras da agricultura que não são destinadas ao consumo humano, como cascas, restos de produção e de alimentos, podem ser aproveitados como comida para os animais. As pêras não comercializadas servem de alimento rico para galinhas, porcos, ovelhas e coelhos. E, muitas vezes, esses alimentos não aproveitados acabam apodrecendo, atraindo moscas e outros animais. O mesmo acontece com legumes, verduras e restos de cultivos variados que também podem ser utilizados na alimentação animal. O aproveitamento dos restos de alimentos não é uma novidade. Muitos países já adotam políticas públicas de tratamento e uso dos resíduos orgânicos. O manejo dos animais na agroecologia também se utiliza do princípio do aproveitamento de tudo o que é produzido: “nada se perde”. Plantas são adubos verdes e alimentos. As leguminosas, por exemplo, são ricas em proteína e fibras e alimentam os animais: ervilhaca, mucuna, crotalarias, trevos, estão nessa categoria de plantas que são fertilizantes e forragem ao mesmo tempo. Lições das guerras A segurança, no tocante à produção de alimentos, passa também pela capacidade de poder reproduzir facilmente a comida, de forma a sustentar uma população inteira. Houve uma época, no Brasil, em que não se reproduzia o trigo (base do pãozinho nosso de cada dia) nem mesmo sua semente para dar conta do consumo interno; ela vinha de fora: do Canadá ou da Argentina. E o problema nem estava no nosso clima ou em se ter aqui um ambiente hostil para essa produção. Isso se dava apenas e unicamente por falta de política pública e pela ausência de incentivo aos nossos triticultores. O beneficiamento também esbarrava na vontade política. No regime militar, inclusive, era proibida a utilização de moinhos coloniais, tocados à água e era necessário obter uma autorização, uma licença especial do governo. Essa ausência de política pública se configurava, sim, num incentivo para que os grandes moinhos, de capital estrangeiro, se instalassem aqui e dominassem um mercado tão essencial ao nosso “café-da-manhã”. Uma espécie de protecionismo às avessas. Na área de segurança alimentar, algumas lições vêm dos períodos de guerra ou de embargos comerciais, quando é fundamental ter o domínio da tecnologia de produção de alimentos e a capacidade de reproduzir sementes. A biodiversidade brasileira é nosso maior patrimônio e deve ser bem cuidado. Há licenças e tecnologias para a reprodução em cativeiro de animais silvestres, como pacas, capivaras, cotias, jacarés e porcos-do-mato, mas resta desenvolver hábitos saudáveis e preservacionistas nesse sentido. Um bom exemplo de manejo e criação de animais silvestres para a alimentação humana é a Venezuela, maior exportador do mundo de carne de capivara. Geração de renda, de oportunidades de trabalho e acesso à alimentação adequada andam juntos. São políticas que se complementam para a semeadura de um modo de vida saudável em que segurança alimentar esteja no topo das prioridades sociais e econômicas. A agroecologia e a agricultura familiar oferecem uma série de caminhos e de alternativas para essa produção alimentar e nutricional de qualidade, sem causar danos ambientais irreversíveis. Há informações e meios suficientes para preservar a vida e frear a destruição suicida dos recursos naturais. Cada um de nós ou todos em conjunto, com o apoio de políticas de incentivo, temos nas mãos a responsabilidade de cultivar um mundo melhor. Os consumidores têm um papel importante nesse processo quando adquirem produtos de nossa agricultura familiar e quando optam por consumir alimentos menos industrializados, frutos de época e típicos da nossa cultura alimentar. (*) Paulo Henrique Mayer é engenheiro agrônomo, especialista em agroecologia e doutorando em Meio Ambiente pela UFPR. Junto com Inês Claudete Burg, é autor do livro “Alternativas Ecológicas para a Prevenção e Controle de Pragas e Doenças” (30ª edição). Contatos: – Paulo Mayer – (41) 3285-7564 / pauloaopa@terra.com.br.