Deputada reeleita com 54 mil votos, Luciana conta que sua vida política começou com um estágio no Piauí, seguido de um trabalho social no sindicato.

Filha de pequenos agricultores, Luciana nasceu em Mariano Moro (RS), em 10 de setembro de 1965. Aos 3 anos de idade, mudou para o Paraná, acompanhando os pais Tranquilo Guzella e Dejanira Chiapetti Guzella e seus três irmãos – Rejane, Elizete e Valmor.

Em Nova Seção, Francisco Beltrão, casou com Justino Rafagnin, com quem tem dois filhos: Camilo, 22 anos, formado em Fisioterapia, e Giovana, 20, acadêmica de Odontologia na Unioeste de Cascavel.

Iniciou sua carreira política em 1992, elegendo-se vereadora de Francisco Beltrão, a única do PT e a última dos 15 eleitos, com 388 votos. Em 96, reelegeu-se como a terceira mais votada, com 1.298 votos. Em 98, elegeu-se suplente de deputada, com 15.624 votos, e assumiu a partir de 2001. Em 2002, elegeu-se deputada com 53.339 votos, em 2006, reelegeu-se com 37.966 votos e em 2010 obteve nova reeleição, com 54.277 votos.

Quando se diz que Luciana fala “como uma deputada”, é a realidade. E fala com argumentos. Tem belas histórias de vida para relatar. As respostas que ela deu a estas duas primeiras perguntas já preencheriam toda a página, por isso foram suprimidas algumas partes.

JdeB – Onde nasceu a deputada Luciana Rafagnin?

Luciana – Eu nasci em Mariano Moro (RS), na época era distrito de Erechim. Na nossa família, sempre tivemos muita dificuldade, porque sempre foi uma família bastante humilde. Nós tínhamos muitos problemas de saúde, os meus pais sempre trabalharam muito, não pensando em fazer um capital, mas pelo menos garantir o que comer pra família. Em 1968, quando a gente veio pro Paraná, a minha família foi morar de arrendatários. A terra era do meu tio, o Aldo Chiapetti, em Nova Seção, até setembro de 1984. Quando a gente saiu da comunidade, meus pais vieram morar na cidade. Nessa época eu conheci o Justino, na verdade a gente já morava na mesma comunidade mas não namorávamos. Em 84, começamos a namorar. E em 85 a gente casou, e aí fomos morar no Piauí, um ano, o Justino foi trabalhar no CPT, entre setembro de 85 e outubro de 86. De volta a Francisco Beltrão, o Justino fazia um trabalho junto ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais e eu comecei um trabalho voluntário no sindicato. Trabalho de voluntária, como secretária, e comecei também um trabalho na organização de mulheres agricultoras. Foi um trabalho bastante importante, mas eu falo que, um pouco antes disso, quando eu estava no Piauí, e minha fala é assim, eu tive uma infância normal como qualquer criança, claro que pelas dificuldades que a gente enfrentava, e quando a gente luta pela agricultura familiar, eu lembro das grandes dificuldades que nós tínhamos na roça. Era uma época que a minha família sofria muito com doenças, e não existia o SUS, então qualquer consulta para alguém da família e qualquer medicamento tinha que pagar, foi uma época muito difícil. Minha família trabalhava muito na produção de leite, vendia o leite que era o ganho, a garantia da renda da família. Mais tarde, quando eu casei com o Justino e esse ano que a gente passou no Piauí, foi ali que eu despertei um pouco mais na questão de organização. Eu era uma menina bastante tímida, fechada, acho até que pela origem, minha família não era de participar muito, eu acredito que só fui entender isso depois de alguns anos porque meu avô foi preso político em 1964 e então falar de política, falar de alguma organização, era muito difícil na minha casa. Eu via sempre meus pais acompanhando as eleições, o dia da eleição, enfim, pegar o resultado pelo rádio, eles fazendo aquela torcida, mas sempre muito silencioso. Durante toda a campanha eu nunca vi eles se manifestando pra candidato A ou B. E eu só fui ter essa compreensão mais tarde, quando fui entender tudo isso que a família passou quando meu avô foi preso, a própria pressão em cima da família e o que eles sofreram durante esse período. Eu acredito que isso levou a minha família a não querer participar muito da política, principalmente meus pais. Mas mais tarde, em 85, quando eu e o Justino moramos no Piauí, teve uns padres italianos, porque no nordeste tem muitos padres italianos, pelo menos naquela época, vinham muitos padres italianos para ajudar na organização do povo nordestino por causa das grandes dificuldades que o nordeste tem até hoje. Na década de 80, eram ainda maiores as dificuldades. Quando eu e o Justino fomos para lá, esses padres se aproximaram, faziam um trabalho da CPT também, e pediram pra gente ajudar a organizar um bairro em Santa Terezinha; era um bairro muito pobre, tinha falta de água e a gente começou a organizar. Conseguimos fazer com que o caminhão pipa passasse pelo menos uma vez por semana para levar água pras famílias. Isso me despertou na questão de organização, eu comecei a perceber que se você tem uma certa liderança, no sentido de você chamar o povo, fazer com que eles acreditem naquilo que estão defendendo e realmente vão à luta, é possível alcançar essas conquistas. Aquilo me despertou e me mostrou que realmente a gente precisa se organizar e ir à luta por aquilo que a gente defende.

JdeB – A gente poderia dizer que a cidadã Luciana Guzela nasceu em Mariano Moro, mas a política Luciana Rafagnin teria nascido no Piauí?

Luciana – Eu acredito que sim, até porque foi nesse momento que eu despertei mesmo. Eu falo que na vida da gente tem um momento que dá um estalo, que você descobre que você pode fazer muita coisa, que você descobre que tem muitas coisas erradas que precisam ser melhoradas e que você não pode esperar que o outro faça por você, mas você também deve fazer. Foi nesse momento que eu entendi que eu também podia fazer alguma coisa e que aquelas pessoas, até pelo fato de a gente ser de fora, depositavam uma confiança muito grande na gente. E foi aí que a gente começou essa participação maior, na igreja também. Daí voltamos pra cá, foi um ano que passou muito rápido, mas por outro lado foi uma experiência que eu carrego até hoje e que pra mim é muito produtiva, muito positiva, que me despertou, e que me fez vencer um pouco a barreira que eu tinha, a própria timidez, me fez acreditar que a gente também podia fazer alguma coisa. Foi o fato que marcou a minha vida. Voltando pra cá, comecei com uma participação no sindicato, mais como voluntária, ajudava um pouco como secretária do sindicato, mas comecei mesmo na organização das mulheres agricultoras. Era uma época que a gente defendia que passasse na constituição em 88 o direito previdenciário das mulheres agricultoras, a aposentadoria aos 55 anos, direito de salário maternidade. E eu confesso que a gente ajudava a organizar, mas parecia uma coisa muito distante, parecia que ia ser bem difícil conquistar o direito das mulheres agricultoras de ter o salário maternidade, o direito da aposentadoria. Mas a gente acreditou, nós fomos pras comunidades. Pense que era o ano de 87, 88, e pra você fazer uma reunião numa comunidade, como o sindicato passava também por uma grande dificuldade financeira, era difícil ter um apoio para fazer essas reuniões nas comunidades. Pra eu fazer uma reunião aqui na Volta Grande, na Vargem Alegre, que dá 10 ou 12 quilômetros da cidade, eu tinha que sair às 11 horas com o ônibus de linha que ia pra comunidade. Chegava na comunidade ao meio-dia, meio-dia e pouco, fazia a reunião à tarde, mas só tinha ônibus pra voltar no outro dia, então eu precisava dormir na casa de algum agricultor, uma agricultora, pra no dia seguinte pegar ônibus cedinho, às 6 da manhã, pra voltar pra Beltrão (risos). Foi um trabalho bastante difícil. Logo depois eu me desafiei um pouco mais, aprendi a dirigir, nós tínhamos um fusca, com meu fusca eu saía, fiquei mais autônoma. E podia fazer essas reuniões com uma liberdade maior. Nesse momento a gente fazia as reuniões, colocava até cinco, seis pessoas no fusca, meio apertadinho. E a gente fazia um roteiro de reuniões, e elas rendiam bastante. E era um momento, assim, que a gente trabalhava muito, eu falo que o trabalho das mulheres é um trabalho que eu sou apaixonada até hoje, e eu fui percebendo a evolução das mulheres nesse período, se via grandes mulheres, grandes lideranças que tinham um certo sufoco dentro de si. Elas tinham uma liderança, mas não conseguiam expressar isso, não tinham a oportunidade de fazer um trabalho nesse sentido, de liderança, de ajudar a organizar a comunidade. E nesse período a gente sentiu que houve um avanço grande.

JdeB – E como era o apoio que as mulheres recebiam?

Luciana – Tinha muitas mulheres que colocavam o drama que elas viviam em casa e muitas que saíam de casa pressionadas pelo marido, eles não conseguiam entender por que elas vinham participar de uma reunião. Muitas vezes o entendimento, e eu não culpo o marido, a gente vive até hoje numa sociedade que é bastante masculina, onde o espaço político, o espaço de organização, o espaço de participação é bastante masculino. Hoje a mulher vem rompendo bastante isso. Eu gosto de comentar uma foto que eu tenho, quando faço reuniões com as mulheres. Se você olhar as fotos antigas, temos lá as mulheres na janela, os homens estão na frente dos sindicatos, e as mulheres estão na janela, olhando. Isso foi nos anos 60, 63, 65, quando surgiu o sindicato. E se você tirar foto hoje da direção dos sindicatos ou cooperativas, você vai ver totalmente diferente, hoje você vê a presença da mulher, lá junto. Mulheres presidentes de sindicatos e cooperativas. Você vê essa mudança que ocorreu. As mulheres tinham muito aquela ideia de eu não posso sair de casa, eu tenho que cuidar da casa, dos bichos, da roça. Eu não posso sair porque o meu marido não tem essa compreensão. Muitas vezes elas vinham angustiadas nas reuniões e falavam eu sei que quando eu voltar pra casa, eu vou ter que enfrentar o meu marido, porque ele não tem essa compreensão do quê eu vim fazer. E a gente explicava, não fazíamos nada de errado, em nenhum momento você debatia que a mulher devia confrontar com o homem, brigar, querer se impor dentro de casa. Não, trabalhamos o tempo todo pra que a gente pudesse ter uma relação de paz, e quando se fala paz, fala no sentido de que se pudesse ter igualdade, que as mulheres pudessem também ser respeitadas dentro de casa. E infelizmente naquela época era muito forte a questão, imagina, a mulher sair de casa, vai fazer o quê?

JdeB – E como é chegar ao meio-dia na comunidade e ficar até o outro dia, pra fazer uma reunião?

Luciana – Isso foi principalmente no final do ano 87, início de 88. Foi o ano que a gente começou o fortalecimento da organização aqui das mulheres, através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Naquele tempo, nós tínhamos o Arlei que foi presidente, depois o Adelmo Echer e depois o Luiz Perin. Depois teve o Jaime em uma outra época, que nós tivemos a Zélide, que foi a primeira mulher do sindicato de Beltrão, antes da Zélide ainda teve o Elói, mas o Elói pegou essa época em que a organização já era mais forte, já não tinha tanto problema. É claro que a gente não podia marcar reunião todo dia, mas marcava nas comunidades, no mínimo duas, três reuniões por mês. A gente fazia uma por semana em cada comunidade, por causa dessa dificuldade, praticamente gastava dois dias pra fazer uma comunidade. Porque o sindicato passava uma dificuldade financeira enorme, só tinha um carro, era um fusca pra fazer o trabalho todo do sindicato, tinha o trabalho que os homens já organizavam, precisavam do carro aqui no centro, e também pra eles irem pras comunidades. E o trabalho das mulheres, que estava iniciando, não era visto como prioridade naquele momento, a gente ia fazendo conforme dava. Mas a gente fez muito isso, muito mesmo, às vezes saía à noite com o ônibus da tardinha, e fazia a reunião à noite, mas à noite sempre foi difícil pra receber mulheres, por isso tinha que sair com o ônibus de linha que geralmente saía às 10:30, 11 horas da rodoviária. A gente chegava na comunidade, almoçava na casa de alguma família de agricultores, geralmente de uma mulher que ajudava a coordenar o trabalho na comunidade, fazia reunião, voltava a dormir nessa casa, ou de alguma família que oferecesse o pouso, e no dia seguinte pegava o ônibus as seis da manhã a voltava pra cá. Era uma dificuldade grande, mas foi bem importante.

JdeB – Quem lançou a Dilma presidente foi o Lula, e quem lançou na política a Luciana?

Luciana – Eu não comento muito, mas muitas vezes eu conto, essa história serve de exemplo pra encorajar algumas mulheres pra entrar na política. Eu fazia o trabalho de coordenação das mulheres agricultoras, sempre trabalhando muito pela participação da mulher, seja no campo econômico, social e político. Em 92, quando tivemos as eleições municipais, houve esse debate de quem seriam os candidatos. Nós decidimos pelo Arni, candidato a prefeito; a Ângela foi candidata a vice pelo PSB. O PT sempre trabalhou muito pela questão da mulher, sempre, tanto que em 88, quando nós tivemos o Zeca, nosso primeiro candidato a prefeito aqui, a (candidata) vice-prefeita era a Inês Fávero. Eu comecei a participar do PT já em 86, quando começou o debate no município, a criação do PT, me filiei em 89 no partido, e estou até hoje filiada. E quando, em 92, houve esse debate, primeiro surgiu dentro do próprio grupo de mulheres que a gente trabalhava, um grupo de mulheres que não era do PT, era um grupo de mulheres agricultoras, a gente debateu que era importante as mulheres participarem da política. Aquele grupo que a gente trabalhava não era petista, mas elas defenderam que eu deveria colocar meu nome à disposição. Na hora eu levei um susto, porque a gente fazia esse trabalho mais de coordenação, e trabalhei, já tinha participado de outras campanhas do PT, mas é diferente você pedir voto pro outro e você candidato pedindo voto pra você, não conseguia assimilar isso pra mim. Confesso que passei um mês que não dormia à noite, porque se eu dissesse não, estaria frustrando todas essas mulheres que a gente fazia esse trabalho e falava da importância da participação da mulher; se eu dissesse sim, aquilo me assustava um pouco, bastante, não pouco, poxa, agora eu sou candidata, agora eu vou pedir voto pra mim, dava um medo muito grande, também a própria questão financeira. Aí o partido também fez esse debate, e aqui tem duas pessoas do partido que me apoiaram muito naquele momento, dizendo que eu não poderia dizer não, que eu deveria dizer sim, porque sentiam que era o momento que eu deveria ser candidata. Uma pessoa já não está com a gente, é a Bia, a Beatriz (Beatriz Rugano de Castro). A Bia fez um trabalho brilhante no PT aqui, deixou um exemplo pra nós, de uma mulher guerreira, uma mulher bem batalhadora e de uma mulher bem determinada, falava muito pra mim você tem que ir, Lu! É a tua vez, e eu sinto que você tem que ser a nossa candidata. E a outra pessoa é o Justino, que é meu companheiro até hoje, ele falava também eu acho que você tem que ir sim, porque se as mulheres também estão debatendo isso, se você sente que é importante tua presença, eu acho que você não pode dizer não pra elas. Esse apoio familiar foi fundamental pra mim, porque nós tínhamos duas crianças pequenas e bastante dificuldades e ele falou não, vai que eu te apoio! Eu vou estar contigo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *